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Relações Vinculares – Uma experiência Institucional
 
       Entre os sete elementos da psicanálise preconizados por Bion (1963), a teoria dos vínculos ocupa lugar preponderante em toda a sua obra. Nas relações transferenciais e contratransferenciais, onde o analista e analisando, locutor e interlocutor estabelecem diferentes relações se instala o campo psicanalítico. Utilizei os termos locutor e interlocutor, pois independente da condição estabelecida e o local da prática, clínica ou institucional, a presença deste campo de interação vincular se efetiva e pode ser expresso por diferentes modelos e vértices de abordagem.
         Em Zimerman (2004), a etimologia do termo vínculo alude a alguma forma de ligação.
   “... sua origem no étimo latino vinculum, que significa uma união, com características duradouras.
            Da mesma forma vínculo provém da mesma raiz que a palavra “vinco” (com o mesmo significado que aparece, por exemplo, em “vinco” (de calças, ou de rugas, etc.), ou seja, alude a alguma forma de ligação entre as partes que estão unidas e inseparadas, embora claramente delimitadas entre si.” Pág. 192.
 
             Nos diferentes trabalhos de Freud, Klein, Bowby na abordagem da psicanálise bem como Bateson no estudo da comunicação humana, outros se detiveram no tema durante o curso dos seus estudos e deram a sua contribuição.
           Para Bion (1959) o conceito de vínculo compreende qualquer função ou órgão que desde a condição de bebê, esteja encarregado de vincular objetos, sentimentos e idéias uns dos outros. Dessa forma descreveu os vínculos de amor (L), ódio (H) e conhecimento (K) que podem no geral ser considerados com valência positiva ou negativa. Este autor privilegia o vínculo –K para estender sua observação por tratar-se de um ataque ao vínculo do conhecimento, ou seja, um ataque à percepção, que gera uma desvitalização e anulação dos significados emocionais. Pessoas com comprometimentos emocionais graves expressam mais nitidamente estes acontecimentos.
         Utilizo alguns recortes de situações vividas em diferentes oficinas do CAPS Perdizes para ilustrar o que pode significar o ataque aos vínculos perceptivos, especialmente no que se refere à anulação dos significados e experiências emocionais.
         Rui, usuário do CAPS, com histórico de hospital psiquiátrico de longo tempo, desde o início do meu estágio procurou estabelecer um vínculo particular comigo. Ao longo do tempo de estágio, Rui procurava se relacionar comigo de diferentes formas e me abordava também diferentemente a cada encontro. Chamando-me para situações do campo institucional como no exemplo do encontro no Jardim.
      No mês de maio chegando ao CAPS observei os usuários, na sua maioria reunidos jogando dominó, outros sentados nos bancos espalhados pelo jardim. Um deles que mais tarde identifiquei ser o Rui encontrava-se arando a terra, que se aproximou de mim, sorridente, me explicou o que estava fazendo bem como as razões para tal procedimento. Falou-me que pretendia plantar sementes, que brotariam para que pudessem ser colhidas. Depois me mostrou o canteiro de roseiras e disse que se as rosas pudessem ser colhidas enfeitariam o altar de nossa senhora, mas que ali não podiam ser colhidas, que as mesmas continuariam enfeitando o jardim. Perguntou-me “a senhora estará aqui até quando?” Respondi que iria ficar com eles até o final deste ano. Disse a ele que gostaria de trazer uma muda de roseira na cor branca e perguntei, tem no jardim esta cor de rosas? Disse que não, mas que não adiantaria trazer, pois, eu veria a roseira dar flores porquê iria embora antes disto acontecer.
 
 
        Respondi que mesmo eu não estando ali para vê-la crescer e dar flores, que ela servirá para que todos os demais que ali estivessem observá-las e continuaria enfeitando o jardim da mesma maneira que as outras roseiras.
       Em seguida Rui parou, olhou para mim e disse: “você está muito bonita hoje, mas acho que se estivesse com o casaco preto e a blusa de dentro branca ficaria mais bonita hoje, você não acha?” Agradeci o elogio e continuei respondendo a ele com uma pergunta: Hoje estou vestida assim, apontei para a minha roupa, um outro dia poderei estar vestida com outra roupa de outra cor, mas continuarei sendo a Isa. Novamente ele parou, olhou pra mim e sorriu.
        O vinculo necessariamente apresenta determinadas características, uma delas é que são sempre de natureza emocional e outra é que para se tornar estável necessita que o sujeito possa pensar as experiências emocionais na ausência do outro. 
 
         Nos últimos tempos Rui começou a participar da oficina criativa assiduamente, sentando-se ao meu lado, procurando colaborar comigo, me incentivar na maior parte do tempo, quando dizia aos colegas usuários ou a visitantes do CAPS que eu era uma professora e não uma estagiária. Eu por minha vez o incluía, convidava-o para falar, mas não permitia que ficasse fora do assunto do momento, sempre que podia dizia para que permanecesse durante as reuniões assim como fazia com outros integrantes do grupo. Rui a cada dia ficava mais entusiasmado, embora o tempo que permanecesse no ambiente variasse, entrava, ficava, saía e depois voltava e ficava por mais algum tempo e novamente saía para não mais voltar.  
       Na oficina criativa mais especificamente na atividade “Encontro das Palavras”,  seu irmão Hermes teve participação ativa, ao contrário do que habitualmente acontece.  Numa destas entradas e saídas do ambiente, Rui ouviu o relato transcrito por mim das lembranças de seu irmão. Ainda em pé, ficou ofendido porque a memória do seu irmão não contemplou as mesmas imagens que as ele, quando juntos viveram os mesmos acontecimentos da infância. Agrediu o irmão, caçoou, disse que o irmão não conseguiu ficar casado, etc. Eu como coordenadora desta atividade, sem mudar o tom de voz e postura na cadeira convidei Rui para falar das lembranças dele, dizendo que aquelas relatadas até então eram do seu irmão Hermes. Rui começou a rir e falar coisas fantasiosas desconversou e saiu.
        Bion estendeu a teoria vincular para além dos dois vínculos de amor e ódio, bem desenvolvidos por Freud e Klein. Uma terceira natureza de vínculo, o do conhecimento que se relaciona à aceitação ou não das verdades penosas tanto as internas como as externas que dizem mais respeito a auto-estima dos indivíduos.
        Quando Rui está sendo agressivo com os outros, por não estar se sentindo entendido e respeitado, porém no fundo sua agressividade junto com o ódio está mais a serviço da vida do que da morte, na tentativa de adquirir um sentimento de identidade próprio, usando uma emoção contra uma antiemoção.
        No último dia desta atividade conforme previsto foi feita à leitura do conto “Lembranças da minha Infância” elaborada a partir da compilação dos vários escritos e relatos feitos pelos participantes da oficina e organizados por mim, estagiária, num único texto, quando procurei não alterar a maneira singular de cada autor contar a sua parte da estória. O personagem tem um nome fictício (João), o tema foi proposto pelo grupo, bem como a ordem dos diversos fragmentos foram discutidos em conjunto.
         Ao efetuar a leitura, os usuários identificavam as suas histórias e sorriam entusiasmados com sua produção. Aqueles que escutavam a estória inteira não tinham conhecimento de qual parte pertencia a cada um, entusiasmavam-se com o enredo que por vezes ficava engraçado, confuso e até mesmo emocionante.
      
 
 
 
         Nestes momentos o grupo adquiriu certa unanimidade de pensamento e objetivo, a qual transcende aos indivíduos e se institui como uma entidade à parte.
       Os usuários na maioria aderiram às emoções do grupo, como uma unidade. Por vezes entrava um usuário fora da sintonia, imediatamente o grupo reagia procurando harmonizar a escuta. O usuário aceitava e ficava ou saia para não voltar. Havia se instalado uma cultura no grupo, que resulta do conflito de uma oposição entre as necessidades da mentalidade do grupo e as de cada indivíduo em particular.
       O Rui neste dia, desde a minha chegada estava alterado, reclamou que eu não havia olhado para ele à minha chegada. Respondi cumprimentando-o e depois disse que nem havia dado tempo de chegar e cumprimentar a todos na minha passagem. Ficou calado.
       Convidei todos os usuários para participarem da reunião dizendo que leria para todos o conto feito por eles e gostaria que dessem suas opiniões. Rui me puxou delicadamente pelo braço, mas com ênfase, me levou para observar o quadro de avisos com o comunicado sobre a atividade “Encontro das Letras”. Na assinatura onde constava o meu nome, ele havia escrito ao lado o nome dele, numa alusão de que estava coordenando a reunião comigo. Olhei e não disse nada.
        Dirigi-me a reunião convidando-o para que me acompanhasse para onde o grupo já estava reunido. Rui no transcorrer da leitura interferia no seu curso, ria, agredia as memórias relatadas por seu irmão Hermes, mudava o assunto, tentava manipular a atenção, me desestabilizar na coordenação, desestabilizar o grupo, solicitava atenção, alegando não estar incluído como participante da redação ou ilustração. Disse a ele que se sentasse conosco, ao meu lado, que tinha um espaço e que nos ajudasse porque o texto não estava pronto e que precisávamos da sua contribuição. Uma das formas do paciente atacar o vínculo do conhecimento é atacar a função de “pensar” do analista, especialmente pelo uso da sua linguagem, para obrigar que o terapeuta pense dentro dos parâmetros que o paciente impõe, tomando as hipóteses como fatos reais ou impondo os “porquês”, de modo a direcionar a sessão.
       Novamente Rui agrediu o irmão. Pedi para que contasse as suas lembranças, pois aquelas que ele havia identificado eram lembranças do seu irmão, como ele havia sentido a experiência da infância dele, que Rui então trouxesse as suas próprias. Disse-me que não poderia contá-las. Sentou, abaixou a cabeça, aquietou-se por alguns momentos, mas não ficou. Tenho que ir. Como observa Bion, todos os exemplos de ataques aos vínculos precedem de uma condição esquizoparanóide, insistindo em usar o termo “vínculo” (também aparece traduzido como “elo de ligação”; no original, linking), para ressaltar que na situação analítica, a relação do paciente não é tanto com o terapeuta, como um objeto, mas sim com uma função. Afirma Bion: “Interessam-se não só o seio ou o pênis ou o pensamento verbal, mas também a sua função de proporcionar um vínculo entre dois objetos”. Ou seja, os ataques não se devem aos conteúdos interpretativos, mas ao fato de ele estar compreendendo a tarefa de interpretar, que quando bem sucedida representa um elo de ligação entre dois pensamentos, característicos de uma interligação humana. Geralmente os pacientes são do “contra”, por razões de obediência ao seu objeto interno da parte psicótica da personalidade, a qual se opõe a qualquer tipo de vínculo e o destrói.
       Na oficina culinária as regras para a participação da confecção do cachorro quente e posteriormente para comê-lo haviam sido estabelecidas previamente ao dia da atividade.    Diferentes apelos foram feitos pelos usuários que não quiseram participar da confecção para que adquirissem o direito de comer após estar pronto o cachorro quente.
 
 
 
      Um deles, Paulo após algumas investidas retornou e pediu novamente para comer o cachorro quente. Renata em sua narração descreve “... Pediu cachorro quente, tornei a falar que não e mais uma vez expliquei que ele tinha escolhido não participar, que ficou combinado que só quem permanecesse na oficina comeria, ele ficou impaciente e disse: vocês estão cozinhando meu coração e meu cérebro naquela panela (sic), respondi: não, estamos cozinhando salsicha, seu cérebro está aí dentro da sua cabeça e seu coração está batendo no seu peito (sic), resmungou qualquer coisa, virou-se para o Sr. Américo e pediu que ele, desse um gole de café. Américo disse que não podia que estava seguindo as regras. Do lado de fora ficou conversando com os usuários fazendo observações quanto a minha negativa”.
      Bion faz uma analogia que torna claro a estrutura característica do ego do paciente e sem dúvida são um indicador fiel de como esse paciente se defende e se comporta na vida real.
 
“Pode se reconhecer com facilidade qual a natureza de uma determinada árvore não-identificada, a partir do aparecimento dos seus frutos”.
 Pág. 256
 
     O mesmo autor concebe este tipo de ataque ao vínculo caracterizado por resistência, como uma forma de construção do ego do indivíduo para se defender dos perigos, como neste caso, um paciente considerado “difícil”. Trata-se de uma hipertrofia defensiva para garantir a sua sobrevivência psíquica ante o terror do desamparo e do aniquilamento. É uma técnica de salvaguardar a vida, que se torna mais compreensível pela etimologia da palavra resistência, onde “re” (de novo outra vez) e "sistere" (continuar a existir), onde resistir está a serviço da vontade de viver, de continuar a existir e o contrário disto seria desistir de viver. Seria funesto.
 
Isa Maria Zimermann de Araújo - Psicóloga – CRP 06/93.864
Associada CEAAP – Psicanalista pelo SEDES oferecendo Psicoterapia e Supervisão para Psicólogos na abordagem Psicanalítica no CEAAP

 

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