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O que é um ri$co para a saúde pública?

 

“Idade avançada do pai é ligada a risco maior de autismo” é o título de um artigo publicado no jornal “Folha de São Paulo”, extraído do “The New York Times”, em 23 de agosto, 2012. Refere-se a um estudo na revista “Nature” sobre a maior problabilidade de homens com mais idade, para gerarem filhos autistas e esquizofrênicos. Cita que “o risco genético de problemas psiquiátricos e de desenvolvimento vem do pai”.

Notamos algumas consequências nessas frases para poder entender suas dimensões no que se refere às políticas de saúde pública e, em especial, de saúde mental. A culpabilização do pai é a primeira consequência. Pais e familiares, quando são convocados a lidar com respostas de seus filhos, sejam elas autistas, esquizofrênicas, por exemplo, sofrem de um certo desapontamento nos seus projetos de “normalidade” para uma criança, o que Éric Laurent (em A Cifra do Autismo, http://www.autismos.es/textos-online/24-la-cifra-del-autismo.html) denominou de Ideal. Tal decepção é acompanhada de sentimentos de impotência e desistência daquilo que poderia ser o futuro “bem sucedido” de seus filhos, ou seja, conformam um distanciamento maléfico.

Consequentemente, se perguntam: de quem é a culpa? O que fez isso com meu filho? E, por meio das interrogações, passam a buscar respostas e a transitar pelos lugares de tratamento possíveis para as crianças “deficitárias” ou doentes. Bruno d’Halleux (na revista Préliminaire n.13, 2001) adverte que, considerar os pais como responsáveis pelo autismo dos filhos gera uma posição extrema e segragatória, certo terrorismo que contribui mais para afastar os pais dos cuidados dos filhos, centrando-os como incompetentes.

O problema da culpabilização do pai, tal como a culpabilizaçlão da mãe era a resposta do campo “psicologizante” há um tempo atrás, pode localizar o autismo e a psicose infantil nas buscas frenéticas de se achar um bode expiatório para se depositar as dificuldades de se pensar em políticas coletivas, que se faz aparente nas instituições públicas. A tarefa, caso aceitemos a explicação genética, é no campo de intervenções do aconselhamento genético ou algo próximo de um veto aos homens “mais velhos” de terem filhos. O artigo da Folha de São Paulo sugere, como estratégia, o congelamento do sêmem do jovem marido para o futuro.

Além do mais, acrescenta-se o interesse privado que a empresa responsável pelo estudo tem, de regulação e licenciamento de ferramentas de detecção dos possíveis ri$co$ genéticos de diversas patologias. Bom, sabemos que o mercado de biotecnologias é um grande potencial para além do farmacêutico e quem paga a conta no final são os contribuintes com seus impostos, no que diz respeito aos tratamentos na rede pública.

Ainda que o artigo conclua com uma relativização, ao afirmar que as chances de desenvolvimento de tais doenças é mínima, o problema de tal pesquisa começa pela idéia do “risco”, bem como suas implicações na saúde pública porque, segundo Rita Barradas Barata (na revista Cadernos de Saúde Pública, v.17, n.6, 2001) as propostas de “políticas e programas voltados para a proteção e recuperação da saúde podem ser vistas como ações no âmbito da gestão de riscos”. Neste campo de saber e prática, o risco tem um sentido único e estrito, o de probabilidade de ocorrência de um evento, derivado da epidemiologia e da estatística. Não carrega o sentido de doenças, apesar de ser aplicado a elas e a facilitar desenvolver programas públicos e coletivos de intervenções. Porém, para Mary Jane P. Spink (na revista Cadernos de Saúde Pública, v.17, n.6, 2001), o risco insere-se num campo discursivo que está para além daquele estabelecido pelas ciências matemáticas, sendo uma metáfora própria para as sociedades contemporâneas, “figura de linguagem utilizada para falar de novas sensibilidades decorrentes do imperativo de enfrentar a imponderabilidade e volatilidade dos riscos modernos”.

Destaco a “imponderabilidade e volatilidade”, que descrevem um lugar comum de tecnologias manufaturadas e globalizadas. Segundo Spink, foi U. Beck quem descreveu a sociedade de riscos como aquela em que globalização, individualização e reflexividade conformam um mosaico de tal modo que “não é mais o risco, mas a imprevisibilidade, a imponderabilidade e a complexidade que marcam nossas experiências cotidianas; são indicativos, portanto, do deslocamento da sociedade disciplinar para a de risco”. Zygmunt Bauman (Amor Líquido, 2004) corrobora tal tese e acrescenta os efeitos nos laços sociais, como fragilidade, insegurança e afrouxamento. O medo diante da assunção dos riscos de um relacionamento permeiam a vida social e familiar, bem como seus laços. Os relacionamentos são tratados como descartáveis tais quais gadgets e mercadorias que podem ser trocadas a qualquer momento caso apresentem defeitos. As relações virtuais conformam o modelo porque permit em a opção para se “adicionar” ou “deletar” seus laços a qualquer momento.

Por essa via de análise, o risco está presente em qualquer situação social de modo que podemos deslocá-lo do campo exclusivo do genético. E também do autismo! Claro, as notícias são boas na exata medida em que pode ajudar a compreender as bases biológicas do autismo e da esquizofrenia porém, a dimensão genética do sintoma é uma das vias que podem trazer muitos desconfortos tanto para a tentativa de se tratar a culpabilidade inerente aos pais como as possibilidades de se resignificar tais laços, de aproximar pais e filhos. Éric Laurent sugere que a cifra que o autismo esconde está relacionada com as possibilidades de escutá-los. Distancia-se pois, das cifras mercadológicas dos experimentos genéticos que ouvem as vozes mercadológicas e da ciência. Ou seja, diante da complexidade do problema, precisamos ponderar sobre tais destinos dessas pesquisas da sociedade contemporânea! Não seria um “risco maior” consubstanciar os processos de culpabilizaçã o e distanciamento dos pais sobre seus filhos autistas ou psicóticos?

A questão, então, sobre o acompanhamento das crianças autistas e psicóticas, é que são frutos dessa sociedade de riscos. Porém, como uma aposta na gestão de ri$co$ genéticos pode garantir um mínimo para que tais crianças e seus pais construam um espaço psíquico em que se possa fazer elaborações do seu entorno, do seu próprio corpo (e não de um corpo biogenético genérico), do seu “autismo entre vários” (Éric Laurent)?
Rodrigo M. Giovanetti CRP 06/69455                         Notas em Psicanálise Website ::: rodrigogiovanetti.wordpress.com


Psicólogo clínico - Mestrado em Saúde Pública - Especialização em Psicanálise
Coordenador CAPSi de Taboão da Serra - End.: Estrada das Olarias, 670. Taboão da Serra. Tel.: 4685-2115
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