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ImageUm dia, de manhã, Inês acordou com uma sensação estranha, de insegurança, como se estivesse perdendo o equilíbrio. Ela percebeu na hora que era a mesma sensação que tivera um momento antes de acordar, no final de um sonho. Mais tarde, no decorrer do dia, essa sensação continuou a incomodá-la e, intuindo que aquele sonho trazia uma mensagem importante, Inês decidiu anotá-lo:
Texto de autoria de Carlos Bein. Formado em psicologia pela Universitat Autònoma de Barcelona (Espanha). Mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universiade Católica de São Paulo. Especialidade no psicodiagnóstico de Rorschach pela Societat Catalana del Rorschach i Métodes Projectius (Barcelona, Espanha). Especialização em Teoria Junguiana coligada a Técnicas Corporais (Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo). Terapeuta parceiro na Clínica CEAAP, onde coordenou diversos cursos sobre Jung e os sonhos, e realizado supervisões individuais e de grupo na linha junguiana

É muito tarde, de noite. Estou em um prédio pelo qual tenho alguma responsabilidade, talvez eu seja a síndica. Chegam os membros de uma banda de rock, jovens rapazes de cabelo comprido. Eles têm intenção de fazer um show num dos andares. Receio que, se o fizerem, os vizinhos virão a reclamar. Eles deixam um amplificador no saguão. Eu estou junto com meu pai e um zelador, ambos me falam que não é possível fazer um show a esta hora da noite. A seguir, começo a ouvir música saindo do amplificador. O volume, muito baixo no início, vai aumentando mais e mais. Eu entro no elevador para subir ao sexto andar, onde eu sei que eles estão tocando. O interior do elevador está escuro e aperto o botão errado. Enquanto eu vou apertando outros botões eles se iluminam debilmente, o que faz com que eu possa ver os números dos andares que eu vou apertando, constatando que o elevador vai subindo mais e mais: andar 11… 62… 87… O elevador atinge tanta altura que não tem mais gravidade e começo a flutuar no ar, o que resulta uma sensação muito desagradável. Ao acordar continuo sentindo esse mal-estar por um bom tempo.

Como acontece com tantas pessoas na atualidade, Inês não costumava lembrar de seus sonhos e, quando isso acontecia, ela não lhes dedicava muita atenção. Não porque pensasse que os sonhos carecem de sentido, mas ela tinha outras preocupações que considerava mais importantes, e ainda, nas poucas vezes que ela tentara compreender seus sonhos, o resultado fora infrutífero. Mesmo assim, e sem saber porquê, o sonho deixou-a com uma inquietação estranha. Alguma coisa em seu interior lhe dizia que aquele sonho trazia uma mensagem importante.

Essa atitude indiferente aos sonhos, tão comum em nossos dias, tem uma história muito recente. Se retrocedermos a tempos passados, verificaremos que o normal era dar aos sonhos tanta ou mais importância que aos fatos da vigília. Mesmo hoje, apesar do ceticismo reinante, não é raro ouvir alguém contar que, em determinado momento da vida, teve um sonho que impressionou profundamente e que, apesar de tentar esquecê-lo, sua lembrança o acossava obsessivamente e até que o mesmo sonho foi se repetindo noite pós noite durante um período longo de tempo.

Contudo, por mais que as pessoas possam intuir que seus sonhos estão lhes transmitindo uma mensagem, o mais comum é que não consigam compreendê-lo.

Isso se deve a que os sonhos nos falam através de símbolos e essa é uma linguagem que ignoramos. Muita gente opta então por comprar um dos inúmeros dicionários de sonhos que circulam no mercado. Mas todos eles tem um ponto de vista exotérico, isto é, consideram o conhecimento do significado dos símbolos oníricos, estranho à pessoa. Deste modo, os sonhos são entendidos como se tratassem de um idioma estrangeiro, e fosse se procurar em um livro o significado de suas imagens.

Esta foi a primeira coisa que Inês pensou e, com toda boa fé, comprou um dicionário de sonhos. Nele achou o seguinte significado para “elevador”:

Expressão do desejo de subir, de melhorar, de ir cada vez mais para acima. Sonho, portanto, positivo, a menos que nele apareçam elementos negativos.

Inês tinha terminado recentemente seus estudos de relações públicas, mas, por não achar trabalho nesta área, estava dando aulas de francês numa escola de idiomas. Ela sentia-se mal por causa disso, já que, por um lado, não se acreditava preparada para esse trabalho e, por outro lado, julgava estar desperdiçando o investimento e o sacrifício que seu pai tinha efetuado quando lhe pagou os estudos. Era verdade que estudara francês por muitos anos e tinha um grande conhecimento dessa língua. “Mas eu estudei francês para mim, não para ensinar a outros”, pensava Inês. Ela tinha a impressão de que todos a olhavam mal por isso, de modo que se sentia muito incômoda em seu trabalho. Mas também significava uma fonte segura de renda e ela não via possibilidade garantida de trabalhar como relações públicas. Identificou o “desejo de subir, de melhorar” que aparecia no dicionário com sua vontade de deixar de dar aulas para se dedicar à sua profissão; contudo, ela não conseguia dizer se no sonho apareciam ou não “elementos negativos”. Certamente, a sensação de flutuar do final lhe resultava desagradável, mas não conseguia discernir se o fato em si tinha de ser considerado negativo. Voltou a olhar no dicionário e achou a palavra “voar” que, pensou, encaixava-se no “flutuar no ar” do seu sonho:

Bom augúrio, que denota superação de medos e realização de desejos.

Parecia, portanto, que não tinha nenhum elemento negativo no sonho. Daí ela deduziu que seria melhor deixar as aulas de francês e se arriscar a trabalhar como relações públicas, talvez investindo a sua poupança no aluguel de um escritório. Porém, apesar de estar tudo tão claro na sua cabeça, continuava aquela inquietação corporal indefinida, como se o corpo estivesse advertindo para ir mais devagar. Inês teve o bom senso de escutar seu corpo e não se jogar numa aventura que podia ter um custo muito elevado. De modo que decidiu entrar num grupo de trabalho com sonhos.

Os símbolos oníricos não constituem uma linguagem exotérica; não é preciso recorrer a um dicionário para descobrir o seu significado. Pelo contrário, se trata de uma linguagem esotérica. Em outras palavras, o significado há de se buscar no interior da pessoa. Nada a ver, portanto, com um dicionário. Como já falou Jung, “A arte de interpretar sonhos não se apreende em livros” (1). Os grupos de trabalho com sonhos funcionam como um processo iniciático no qual os participantes aprendem a abrir as portas da percepção interior, o que permite acessar um saber ancestral que acumula milhões de anos de evolução, ao mesmo tempo que incrementa a intuição e a criatividade.

Com a ajuda do grupo, Inês foi deixando para segundo plano aquelas idéias que a obcecavam e, graças a isso, ela pode descobrir outras vozes, outras tonalidades, outras idéias que estavam contidas no seu sonho mas que, até aquele momento, não tinha lhes dado a menor atenção. Deste modo, ela começou a atender àquela música que saía do amplificador de seu sonho: no início se tratava de uma música clássica muito agradável e bem interpretada e, um momento mais tarde, começou a soar um rock que ela achava muito bom. Mas a preocupação com os vizinhos dominava toda sua atenção, de modo que, quando escreveu o seu sonho, ela não se preocupou em anotar qual era aquela música nem o muito que dela gostou. Agora Inês podia tomar consciência de que a do seu sonho era uma banda muito boa, mas ela, preocupada com os vizinhos, não a estava valorizando. E não só isso: ao focar sua atenção nos membros da banda, ela tinha a impressão de que eles não ligavam se as outras pessoas iam gostar ou não da sua música, pois quando eles tocavam não o faziam procurando aplausos senão pelo puro prazer de tocar.

Inês descobriu que esta era uma dimensão que ela não atendia no seu trabalho. Na verdade, ela gostava muito de dar aulas e era muito bem considerada pelos seus alunos e pela direção da escola, mas a idéia de que as outras pessoas, em particular o seu pai, esperavam que se dedicasse às relações públicas, fazia com que ela não o valorizasse. Começou a questionar então o seu sistema de valores: era mais importante trabalhar com uma coisa que ela gostava ou com o que outros esperavam dela? Ainda mais: realmente todo mundo julgava que ela devia se dedicar às relações públicas? Na verdade, ela achava que seu pai devia pensar deste modo, mas nunca o tinha ouvido dizer isso. E também: não era certo que sua formação em relações públicas estava contribuindo para o sucesso das suas aulas? Não era possível estabelecer uma ponte entre ambas as profissões? Começou a perceber também que as aulas estavam lhe oferecendo uma experiência no trato com as pessoas que, sem dúvida, poderia lhe resultar útil se no futuro se dedicasse às relações públicas.

Foi assim tomando consciência de que, naquele momento de sua vida, dar aulas fazia sentido. De algum modo, estava aprendendo a lição que lhe tocava aprender. Ela pôde entender também o mal-estar que sentia no sonho quando flutuava no ar: querendo se elevar em direção ao que acreditava ser o seu dever, estava se esquecendo dela mesma, perdia contato com a sua própria realidade. Simbolicamente, ela deixava de tocar com os pés o chão. Inês estava vivendo um mito pessoal que afirmava não ser possível desfrutar trabalhando. Trabalho era sinônimo de esforço e sacrifício, portanto ela se sentia culpável por sentir-se bem quando dava aulas. E assim ela fechava os olhos frente a qualquer possibilidade de promoção que pudesse aparecer. Percebeu que responsabilidade e prazer não têm forçosamente que estar separados; pelo contrário, se ela conseguisse harmonizar ambos os aspectos no trabalho, o seu rendimento e a sua satisfação pessoal iriam de mãos dadas, facilitando o sucesso em qualquer atividade à qual se dedicasse.

Sem dúvida, os livros que tenhamos lido e os conhecimentos que possamos ter sobre sonhos podem nos ajudar a entender o seu significado, mas há uma dimensão esotérica que só pode ser captada deixando de lado a função intelectual. Para Inês, o ensinamento mais importante que pode tirar desse sonho foi que ela possuía um núcleo de energia oculto no seu interior, um espírito jovem que sabia desfrutar da vida, que sentia prazer com o que realizava e que, se não deixasse um espaço nas suas atividades para ele, perderia um valioso recurso pessoal. Fizesse o que fizesse, não era tão importante que fosse aquilo que supunha ser sua obrigação, mas sim que o realizasse com esse espírito dinâmico e criativo.

Esta abordagem esotérica é válida tanto para compreender os símbolos oníricos como qualquer expressão simbólica. A capacidade de simbolizar é uma das características que definem o ser humano e sonhar é, sem dúvida, a atividade criadora de símbolos por excelência. Há mesmo quem opine que os mitos antigos foram elaborados a partir de sonhos.

Sonhar é uma atividade completamente inconsciente, o que faz com que os símbolos que produz tenham um caráter natural e espontâneo. Vivemos num mundo artificial, regido por normas e preconceitos que nos afastam de nossa própria essência. Se prestarmos atenção ao que sonhamos, poderemos encontrar de novo a nós mesmos e viver uma vida plena de sentido.

(1) Jung, C. G.: “Civilização em transição”. CW 10, § 325. Vozes, Petrópolis 1993

Bibliografía recomendada:

Delaney, Gayle: “El mensaje de los sueños”. Ed. Robin Book, Barcelona.

Robert Bosnak: “La práctica del soñar”. Ed. Obelisco, Barcelona, 1996.

Gendlin, E.: "Deja que tu cuerpo interprete tus sueños". Ed. Desclée de Brouwer, S.A., Bilbao, 2001

Texto de autoria de Carlos Bein. Formado em psicologia pela Universitat Autònoma de Barcelona (Espanha). Mestre em Ciências da Religião pela Pontifícia Universiade Católica de São Paulo. Especialidade no psicodiagnóstico de Rorschach pela Societat Catalana del Rorschach i Métodes Projectius (Barcelona, Espanha). Especialização em Teoria Junguiana coligada a Técnicas Corporais (Instituto Sedes Sapientiae, São Paulo). Terapeuta parceiro na Clínica CEAAP, onde coordenou diversos cursos sobre Jung e os sonhos, e realizado supervisões individuais e de grupo na linha junguiana

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