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Aconselhamento Psicológico - Plantão Psicológico: no enfrentamento da violência doméstica


RESUMO

Este artigo trata do serviço de Aconselhamento Psicológico: Plantão Psicológico desenvolvido com mulheres que sofrem de violência doméstica da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher. Tem como objetivo auxiliar mulher a enfrentar os conflitos vividos numa relação de violência doméstica, com um suporte psicológico, onde este poderá propiciar o esclarecimento sobre sua situação, promovendo uma nova significação do conflito. Para finalizá-lo é apresentado um relato de um caso demonstrando a possibilidade de transformação quando há um profissional e um ambiente facilitador.

ABSTRACT

This article refers to the physicological advice service. On physicological duty developed in the Women Defense Police Station with women who suffered from domestic violence.

This service has the aim to auxiliary women to face conflicts in a violence domestical relationship. Having a phycological support women can have a clear idea about his situation, promoving one new meaning about the conflict.

To finish the support is showing a case repport wich demonstrates the possibility of transformation when there is a professional and also an atmosphere to support the person.


Palavras-chaves: Aconselhamento Psicológico - Violência Doméstica – Psicologia Comunitária


Key-Words: Physicological advice - Violence Domestical – Community Psychology

INTRODUÇÃO

O trabalho de Aconselhamento Psicológico: Plantão Psicológico realizado na 1ª Delegacia de Defesa da Mulher está em andamento desde março de 2001 e já atendeu cerca de 7.500 pessoas vítimas de violência doméstica. Podemos considerar uma ação psicossocial e/ou comunitária, que atende e/ou dá assistência a estas pessoas e que, no meu ponto de vista, é mais uma forma de atuar da psicologia junto à população que enfrenta a violência doméstica.

Quando aceitei a proposta de desenvolver um trabalho psicológico na 1ª DDM objetivando atender às pessoas vítimas de violência doméstica, não tinha me dado conta da extensão desse trabalho, que no início parecia um simples atendimento de emergência às mulheres que procuravam a 1ª DDM para registrar queixa de violência e que eram convidadas a passar pelo serviço de Psicologia.

A Delegada Titular da 1ª DDM à época dizia que o problema não era só de registro da ocorrência policial, mas também de desestrutura familiar e dificuldades sociais. Para ela, era preciso pensar uma forma de diminuir a violência contra a mulher, principalmente aquela que ocorre no lar. No ponto de vista dela e do meu, se conseguíssemos auxiliar a mulher estaríamos permitindo a ela sua reestruturação, bem como a de sua família, como um todo, evitando um crime maior.

Passamos a nos preocupar em dar apoio psicológico às mulheres que se apresentavam com pensamentos desordenados, ansiosos e conflitados perante as situações que estavam passando. Quando não dávamos conta da continência do desespero da mulher, as encaminhávamos para outras instituições de saúde, com as quais procuramos manter contato e, quando possível, propúnhamos parcerias para que as mulheres fossem atendidas sempre que necessário. As usuárias podiam retornar quando desejassem utilizar o serviço de Aconselhamento Psicológico.

No Serviço de Aconselhamento Psicológico não há fila de espera, as usuárias são atendidas no momento de sua necessidade e podem retornar pelo menos por até sete vezes. Após estes atendimentos, eram encaminhadas para centros de atendimento psicológico ou para as Clínicas Escola de Psicologia ou outras instituições que pudessem proporcionar à usuária atendimentos de psicoterapia individual, ou grupal, ou psiquiátrico.

No início, este serviço foi construído para atender de forma emergencial às mulheres que procuravam o auxílio legal na 1ª Delegacia de Defesa da Mulher; no entanto, hoje elas buscam diretamente os atendimentos psicológicos, por indicação de colegas de trabalho ou vizinhos que sabem do trabalho ou que já utilizaram o serviço.

Complementando, gostaríamos de registrar um comentário da Delegada Titular da 1ª DDM: “O sucesso dessa iniciativa pode ser medido não só pelo número de pessoas já atendidas, que passa de quatro mil, mas também pelo reconhecimento da comunidade” (2001).

Com quatro anos de trabalho, podemos dizer simbolicamente que sua existência é uma criança, que tem muito para crescer e muitos obstáculos a superar; entretanto, é preciso continuar acreditando na possibilidade que este oferece à usuária e sua família, para que estas mulheres conquistem seu bem-estar como mulher, esposa, mãe e trabalhadora.

Para desenvolver este trabalho contei com aproximadamente 110 estagiários do curso de graduação em Psicologia da Faculdade Paulistana de Ciências e Letras, que com o estágio iniciaram a formação de sua identidade profissional em psicologia comunitária. Aprender a desenvolver um trabalho junto a esta população é crer na mutação da mulher, de seus filhos, da sua família, e até mesmo do agressor, porque todos fazem parte e/ou constroem nossa sociedade.

É relevante agora definirmos o que estamos considerando como Aconselhamento Psicológico: Plantão Psicológico.

Scheeffer (1986) conceitua o aconselhamento como ação educativa, preventiva, de apoio, situacional, voltada para a solução de problemas. Este processo trabalha com material consciente e dá ênfase à normalidade. Seu objetivo é facilitar à pessoa obter uma realização adequada; promover o desenvolvimento através de escolhas acertadas. A autora comenta que “aconselhamento relaciona-se a apoio e a reeducação” (p. 16).

O aconselhamento foi escolhido como referência teórica devido à sua técnica permitir em curto espaço de tempo auxiliar a pessoa a lidar melhor com seus recursos e limites.

No processo de aconselhamento trabalha-se com a problemática que a pessoa expõe, acolhendo sua experiência em determinada situação. Rosemberg (1987) comenta que “Esta característica de enfocar a experiência da pessoa por seu próprio referencial está ligada a uma outra que se refere à possibilidade de responder à pessoa que coloca sua demanda, já no momento presente, no aqui-agora da situação do encontro.” (p. 76)

Diz a autora que todo este processo possibilita a realização do Plantão Psicológico; “(...) onde o trabalho do conselheiro-psicólogo é no sentido de facilitar ao cliente uma visão mais clara de si mesmo de sua perspectiva ante a problemática que vive.” (1987, pág. 76)

E por que “Plantão Psicológico”? Segundo Cautella Jr. (in Morato,1999), “o Plantão Psicológico é um instrumento que se propõe a facilitar o resgate de uma visão mais integrada do cliente” (p. 171).

Para que o atendimento ocorra de forma satisfatória será preciso que a relação entre usuária e psicoterapeuta esteja fundamentada na ação de ajuda mútua, ou seja, a usuária, ao procurar o psicólogo, busca um ambiente acolhedor e que nele seja compreendida. É fundamental que o psicólogo seja facilitador desse processo, preparado para acolher a experiência de vitimização da usuária e não somente seu sintoma.

Wood (in Rosenberg, 1987) diz que “ajudas bem-sucedidas parecem envolver e ajudar a pessoa em transição a experimentar e dar sentido ao que vivencia, enquanto se acreditar na pessoa como capaz de crescer e assumir suas novas situações de vida.” (p. 27)

O Aconselhamento Psicológico: Plantão Psicológico tem como base a Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers, porque acredito que a pessoa tem capacidade para melhorar sua potencialidade e em sua estrutura psíquica experiências satisfatórias, podendo assim dar novo significado em seus valores.

Com esta conceitualização pudemos realizar as atividades desta proposta, com o objetivo de auxiliar cada usuária a enfrentar os conflitos vividos numa relação de violência doméstica, com um suporte psicológico, onde este proporcionou esclarecimento sobre sua situação, promovendo uma nova significação do conflito. Conseqüentemente, a usuária pode se tornar uma pessoa agente transformadora e capaz de construir estratégias, modificando seu cotidiano, suas relações e com capacidade de decidir sobre novas situações no âmbito familiar e social.


MÉTODO

Para propiciar nova significação das vivências em situações de violência doméstica, foram construídos atendimentos individualizados com as usuárias num momento emergencial ou de retorno por interesse da usuária em participar do trabalho de Aconselhamento.

Estes atendimentos foram efetuados pelos alunos estagiários de quinto ano do curso de graduação de Psicologia da Faculdade Paulistana de Ciências e Letras.


PROCEDIMENTO DE ATENDIMENTO

Os atendimentos psicológicos são individuais, com duração de no máximo uma hora. Este processo possui um caráter de atendimento breve; portanto, a intervenção deve ocorrer em um a cinco encontros, com o intuito de orientar e auxiliar na resolução de dificuldades, focando as questões emergenciais e que nem sempre precisam de acompanhamento prolongado.

Os atendimentos são considerados urgentes quando a usuária se apresenta de forma descontrolada e com alto nível de ansiedade.

Entende-se aqui por urgência algo que emerge de uma situação crítica. As pessoas que procuram o plantão estão vivendo questões e problemas que surgiram naquele momento como algo que chegou ao limite e precisa de cuidado, ou ainda estão passando por mudanças drásticas que as levam a procurar alguma orientação para poder reencontrar-se com seu equilíbrio anterior.

Diante dessa situação de urgência não se pode atuar com critérios predefinidos, como veremos adiante; nestes casos, a atuação das estagiárias será construída a partir da dinâmica da própria usuária.

Para a realização desta proposta nos foram fornecidas duas salas pequenas, com boa iluminação e ventilação, adequada para duas pessoas, duas poltronas e um armário para arquivar documentos dos atendimentos de Aconselhamento Psicológico: Plantão Psicológico, preservando as condições de sigilo, conforme orientação do Código de Ética da Categoria do Profissional de Psicologia.

Como supervisora, gosto muito de ilustrar exposições teóricas, e para isto convidei uma dos 110 estagiários que muito colaboraram na realização dos atendimentos do Aconselhamento Psicológico: Plantão Psicológico.


RELATO DE UM CASO

Escolhi este caso para ilustrar o trabalho de Aconselhamento Psicológico: Plantão Psicológico, por ter sido um atendimento que possibilitou transformações na dinâmica familiar

Márcia (nome fictício) comparece à 2ª DDM por iniciativa própria, é encaminhada pela Delegada de Policia da DDM para o Setor de Apoio Psicológico para ser atendida pela estagiária de psicologia no trabalho de Aconselhamento Psicológico: Plantão Psicológico, com o objetivo de dar suporte psicológico, no qual a estagiária poderá propiciar o esclarecimento sobre sua situação, promovendo nova significação de seu conflito e conseqüentemente possibilitando que Márcia se conscientize de sua problemática.

Márcia, 37 anos, cozinheira, portadora da Doença de DEVIC, sofre violência doméstica pelo marido desde 1985. No início de casada sofreu abuso sexual anal por parte do companheiro. Há dois anos ficou acamada devido à doença de DEVIC. Júlio (nome fictício) companheiro de Márcia tem 53 anos, pedreiro, alcoolista, separado de corpos da primeira esposa, com quem teve três filhos.

Flávio (nome fictício), 17 anos, filho primogênito de Márcia com Júlio, está envolvido com drogas.

Márcia é companheira de Júlio há 20 anos, têm quatro filhos desta relação e dois enteados, filhos do primeiro casamento do companheiro; todos morando no mesmo terreno, ou seja, Márcia, Júlio e três filhos menores numa casa; Flávio, filho primogênito do casal em um quarto independente; o enteado, solteiro, em outra casa, e a enteada que é casada, sem filhos, em uma outra casa. Todas as casas foram construídas pelo pai de Júlio, que exerce profissão de pedreiro autônomo.

Recebo a usuária que, muito fragilizada por ter sido agredida fisicamente pelo marido, queixou-se de dores pelo corpo. Apresentava lábios e face direita do rosto, mais precisamente a bochecha, inchados, além de emocionalmente demonstrar um cansaço e abalo, chorando e soluçando copiosamente, dizendo: “O Julio, se alcooliza e não consegue se manter equilibrado e me agride”, no decorrer do encontro verbaliza suas angústias e, após relatar seus dados de identificação, conforme o procedimento, relata alguns episódios envolvidos de muitos sofrimentos, de sua relação de 20 anos com Julio.

Júlio é intimado a comparecer ao Setor de Psicologia da DDM pela escrivã, em dia e hora marcada, para participar do processo de Aconselhamento Psicológico: Plantão Psicológico, a pedido da usuária.

Esta intimação se deu pela expectativa de que o companheiro participando deste processo poderia auxiliar na promoção de transformações na relação familiar, possivelmente através de tomada de consciência da situação de conflito conjugal, resultando o início de movimento desta situação circunstante.

Márcia relata que Júlio não apresentava comportamentos agressivos há dois anos, quando providenciou a ocorrência devido à agressão do companheiro. Nessa época informou-lhe que não aceitaria mais tal situação. Dois anos atrás registrara ocorrência na DDM, retirando a queixa em seguida, devido ao companheiro prometer “seguir Jesus”, realizando tal promessa.

Nessa época comenta que ficou imobilizada durante um ano devido à doença de Devic, ainda que tenha se tratado. Agora está andando, sente apenas dores nas costas quando fica nervosa.

Deixou o companheiro viajando para a casa do irmão no Rio de Janeiro, levando os filhos, porém voltou porque o irmão e sua família têm situação financeira difícil e ela não achou correto levar mais problemas para uma família em dificuldades.

Relata estar preocupada com os filhos do sexo masculino, que estão apresentando comportamento semelhante ao do pai: “deve ser biológico” diz Márcia. Associa os comportamentos dos filhos ao de Júlio. Acrescenta que o pai de Júlio era violento com os filhos, exercia a pratica de violência do tipo: “amarrá-los no tronco e espancá-los, era alcoolista e abusava sexualmente de sua esposa (sogra)”. Júlio foi o filho caçula e somente soube desses fatos pelos irmãos, que contaram para ele tais atrocidades.


Júlio, durante a entrevista, relata: “quando criança tive uma vida muito difícil, meu pai nunca me tratou bem; bebo desde os 15 anos. Senti muito pelo fato de minha mulher vir dar queixa de mim na DDM, me envergonho; sou um trabalhador, não deixo faltar nada em casa, mas fico nervoso porque meus filhos não me obedecem. Tenho um jeito de fazer carinho; fiz pão com manteiga para meu primogênito, ele foi malcriado, falou palavrão, isso não está certo, sou seu pai”. Lembra que bebe desde a época em que morava com os pais e chora; disse que precisa tomar calmante, pois não entende porque fica nervoso.

Comenta que em seu primeiro casamento o sogro o internara, tinha 23 anos na época, quebrava tudo, se sentiu confuso de novo, trabalhava numa fábrica e tinha carteira registrada. Júlio diz: “Eles me jogaram no carro-de-boi e me internaram como se eu fosse um bicho.” Lembra que na época tomou choque elétrico e uma injeção de sossega-leão e após 15 dias recebeu alta.

Júlio diz: “depois que Márcia veio à DDM, parei de beber e de fumar faz três semanas, não quero perder mais uma família. Ela está doente; quero ajudá-la e ajudar meus filhos”. Após as explanações de Júlio, em entrevista de aconselhamento individual, foi marcado outro encontro com Júlio e Márcia juntos.

Nesse encontro Márcia argumenta que “Júlio não a ajuda a conversar com o filho, pois este já discutiu com o pai e, certa vez, levantou uma faca para o pai, isso aconteceu há dois anos e desde então eles mal se falam. O Júlio não tem paciência com o filho, reclama do tempo que demora no banho e desliga a chave do chuveiro no relógio de força. É preciso que ele entenda que a geração de hoje em dia é diferente e o tempo está passando, ele precisa se alistar no exército e não quer, precisa estudar, não sabe nem ler e escrever nessa idade. Nós precisamos achar uma maneira de incentivá-lo. Júlio envergonhado, diz: não soubemos dar limite tudo que Flávio pedia nós demos, eu até fiz um quarto pra ele trazer a namorada e chegar em casa a hora que quisesse; se dirige a Márcia perguntando: o que você acha de levá-lo para trabalhar comigo e pagar o seu dia de trabalho?. Ela concorda e diz:: seria bom, quando você fala que vai pagar, ele vai”. Júlio pergunta a Márcia: Você me ajuda a falar com ele?

Com o intuito de incluir o filho neste movimento, objetivando a melhora da dinâmica familiar, proponho que trouxessem Flávio, para que os três pudessem participar de um encontro juntos.

.Neste com os três exponho a gravidade da doença de Márcia, e que ela não pode passar nervoso, momentos de tensão só piora a saúde dela, e que o pai estava procurando ajuda para deixar de ser agressivo e de se alcoolizar e que ambos estão preocupados com a dinâmica do filho.

Flávio expôs que quer trabalhar e quer estudar, mas não agüenta ver o pai maltratando a mãe, vai fazer de tudo para que a mãe “não sofra mais”. A expressão de Flávio era de muita angústia; porém ao falar da gravidade da doença da mãe, ou seja, degeneração da medula, perda lenta da visão e da coordenação motora, resultando em impossibilidade de andar, Flávio e Júlio demonstraram união para um melhor convívio entre a família.

Comento sobre com Flávio sobre sua dependência química explicando os males que esta ação provoca no cérebro e que talvez sua dificuldade de aprender na escola possa ser uma conseqüência do vício. Enfatizo ainda o fato de ele não querer se apresentar no exército, e que possuir a Carteira de Reservista, é uma questão legal. Expliquei como funciona uma Instituição Pública de apoio e suporte profissional a pessoas envolvidas com drogas e encaminho Flávio para uma Instituição especializada em atendimentos a dependente químico, pedi a Márcia e Júlio que o acompanhassem para o tratamento, pois assim também receberiam orientação sobre como lidar com essa situação que a eles é desconhecida.


DISCUSSÃO

Percebi que poderia ocorrer certo movimento na relação do casal durante a primeira entrevista com Márcia. A relação de ajuda entre usuária e psicoterapeuta possibilitou a tomada de consciência do fenômeno emergente que permeia a relação do casal, assim como no âmbito familiar, isto é, a ausência da comunicação. Com o processo de aconselhamento do Setor de Apoio Psicológico, Márcia pôde conversar com o companheiro sobre a necessidade de se comunicarem, pois sem esta ação não seria possível à continuação de uma convivência.

Penso que se permitindo a falar sobre o intenso conflito que Márcia estava vivendo, ela pode perceber que Júlio se apresentava agressivo devido à convivência que tivera com o sogro, que agia de forma extremamente agressiva com os filhos e achava que o companheiro repetia o que viveu. Por outro lado, Júlio lembra dos momentos difíceis pelos quais passou a família e chora ao falar de suas lembranças. Pede ajuda por não saber se controlar e diante de situações que fogem de seu controle fica muito nervoso e perde o equilíbrio.

Com Márcia compreendendo o conflito interno que o companheiro desenvolveu com sua família de origem, e Júlio podendo se conscientizar sobre sua dificuldade de permanecer em equilíbrio ao se relacionar com o meio ambiente, o casal pode se olhar sem estes bloqueios, numa ótica mais cristalina da problemática em que vivem e desejaram promover transformações na relação familiar.

Este relato de caso nos revela que mesmo um agressor, devido ao grande apelo da doença da esposa por um lado e, de outro, à repetição de comportamento de avô, pai e filho paterno, este envolvido com entorpecentes, após conscientização dos responsáveis, ou seja, pai levado a prestar contas de violência doméstica, conscientiza-se e abstém-se do álcool (freqüência ao AA); a mãe entra em tratamento, com evolução progressiva e acolhida da família (neurologista incentivando-a e auxiliando-a na aposentadoria por invalidez); além de o filho tomar contato com o trabalho do pai.

Este caso é um exemplo da importância deste trabalho de Aconselhamento Psicológico: Plantão Psicológico, através do qual, por meio de um acolhimento adequado e da possibilidade de proporcionar aos usuários da DDM um ambiente facilitador e da relação de ajuda segura estabelecida entre usuário e a psicoterapeuta, pudemos com enorme satisfação concluir a resolução, bem como a evolução que essa família apresentou após alguns atendimentos, a saber: Júlio apresentou abstinência do álcool e passou a freqüentar o AA; Márcia continuou o tratamento, apresentando evolução progressiva, tendo sido acolhida pela família no sentido de incentivá-la a parar de trabalhar, buscando a aposentadoria por invalidez; e o filho Flávio, que passou a ter contato com o pai, acompanhando-o ao trabalho, consciente de ter que buscar ajuda para sua problemática de dependência química.

Podemos dizer que a proposta de auxiliar a pessoa a enfrentar os conflitos vivenciados numa relação de violência doméstica, com um suporte psicológico, proporciona condições para que ocorram esclarecimentos sobre a situação, promovendo desta forma uma nova significação do conflito. No caso em questão, o casal pôde se tornar agente transformador e capaz de construir estratégias, modificando seu cotidiano, suas relações e com capacidade de decidir sobre novas situações no âmbito familiar e social, promovendo desta forma a promoção de saúde no âmbito familiar e pessoal.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FACULDADE DE MEDICINA e COLETIVO FEMINISTA SEXUALIDADE E SAÚDE; O que devem Saber os Profissionais de Saúde para Promover os Direitos e a Saúde das Mulheres em Situação de violência Doméstica. São Paulo: Departamento de Medicina Preventiva. 2003.

FERRARI, D. A. e VECINA, T. C. C. (org.). O Fim do Silêncio na Violência Familiar: teoria e prática. São Paulo: Ágora. 2002.

IZUMINO, W. P. Justiça e Violência Contra a Mulher: o papel do sistema judiciário na solução dos conflitos de gênero. São Paulo: Annablue. 1998.

ROSEMBERG, R. L. (org). Aconselhamento Psicológico Centrado na Pessoa. São Paulo: EPU. v. 21, 1987.

SCHEEFFER, R. Teorias de Aconselhamento. São Paulo: Atlas. 1986.

TELES, M. A. A. e MELO, M. O Que é Violência Contra a Mulher. São Paulo: Brasiliense. 2002.


Maria Antonieta Campos dos Santos 1

Silvia Maria Castelhano Palma 2


1 Professora Universitária, Mestre em Psicologia Comunitária e instituição, Psicanalista-Winnicott, Coordenadora do projeto Apoio Psicológico: enfrentamento da violência doméstica da 1ª Delegacia de Defesa da Mulher. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

2 Discente do Curso de Psicologia da FAPA e estagiária do projeto Apoio Psicológico: enfrentamento da violência doméstica da Delegacia de Defesa da Mulher

A Profª Maria Antonieta é Coordenadora do Núcleo Winnicott do Ceaap e Coordena diversos Cursos na área da Violência Doméstica, Psicologia Jurídica e Plantão Psicológico entre outros.



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