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Sobre Psicologia Hospitalar: Algumas reflexões - Uma leitura do adoecer 

Estas reflexões sobre a psicologia hospitalar e sobre o adoecer surgiram fundamentalmente de uma inquietação, de uma perturbação emocional que me levou a questionar o possível impacto subjetivo da hospitalização nos pacientes internados e culminaram com a publicação de um livro.

Avancei para isso por caminhos que eu conhecia e por outros que foram surgindo durante o percurso da minha prática como psicóloga clínica no hospital, que se direciona ao atendimento ao paciente internado e a sua família e a atividades docentes.

Sobre a especificidade da psicologia clinica hospitalar, diz Romano: "Alem desses níveis de atenção (psicopedagogico, psicoprofilatico, psicoterapeutico), a tarefa do psicólogo clínico hospitalar e focalizada totalmente para a atenção direta ao paciente e seu familiar. As implicações com a equipe serão sempre visando este único paciente sobre o qual se fala. Faz-se esta distinção da atividade do psicólogo clínico hospitalar" (1999)

Para contextualizar e caracterizar a Psicologia clínica hospitalar e sua pratica no hospital geral, vou me apoiar na história da doença. Nas civilizações grega e romana a doença era considerada a partir de uma concepção mítico-mágica e a pratica medica como pratica religiosa. Na Grécia antiga cuja organização religiosa era politeísta, existiam deuses que cuidavam de diferentes aspectos da vida do homem, assim acreditava-se que as pessoas adoeciam ou recuperavam a saúde porque essa era a vontade dos deuses.

Asclepio -o deus da cura das doenças- era reverenciado nos Asclepiades, templos construídos na sua homenagem, aonde os doentes se dirigiam na expectativa e na esperança de recuperar a saúde.

Segundo Ferreira Antunes(1991), nesses templos existiam galerias chamadas Abaton = lugar interdito, onde os doentes eram admitidos para o rito do sono sagrado. Acreditava-se que durante o sono o deus poderia curar o doente e este acordaria totalmente recuperado (aspecto magico da cura) ou também poderia revelar ao sonhador, procedimentos de cura que ele deveria por em pratica para obter alguma melhora ( o sujeito como agente da própria cura).

Geralmente esses templos eram construídos fora das cidades em lugares isolados. Cabe lembrar aqui que durante muito tempo a doença, os doentes e o adoecer foram situações excluídas dos espaços urbanos por diferentes motivos, entre outros pelo medo do contagio, das epidemias - naquela época incontrolaveis - e pelo medo do confronto com doentes esteticamente insuportáveis, como era o caso das pessoas com deformações provocadas pela hanseniase.

Desta forma a sociedade tentava defender-se do que na época se considerava sujo, maldito, perigoso, o que não podia ser mostrado nem visto: o doente.

Na longa caminhada ate os templos, não eram todos que conseguiam chegar, alguns ficavam no meio da estrada, esperando o retorno dos "recuperados", dos "curados" para que lhes dissessem como reaver a saúde. Outros simplesmente paravam para esperar a morte.

Neste contexto surge a figura de Hipocrates, que sem estar doente instala-se no templo para observar a evolução dos doentes e das doenças. A ele atribuem-se conceitos como o de anamnese ou recordação da história; o início do que hoje se denomina raciocínio clinico; a noção de diagnostico e prognostico, entre outros.

Hipocrates pensa no homem como uma unidade, e por tanto ao falar da doença vai considerar o ser humano doente, sem separar o corpo da mente, ou da alma ou dos seus aspectos emocionais.

Parece-me interessante esta concepção grega do adoecer e da cura pois está presente nela, ao meu ver, o que hoje define a leitura psicossomática da doença: simplificando os conceitos poderia dizer que não e só o corpo que enferma. A crença de que através do sono sagrado os deuses poderiam indicar procedimentos "terapêuticos" a serem praticados, assinala a necessidade da participação do sujeito na sua recuperação, conceito absolutamente atual.

A historia mostra diferentes ideologias que dominaram o campo do pensamento ocidental e definiram disputas pelo poder, entre os cientistas e a igreja, entre a ciência e o poder divino, fundamentalmente. Nessa briga teórica o homem foi separado, cindido em corpo e alma para que cada grupo desse sua visão sobre ele. Introduzindo a idéia de doença nesse espaço ideológico, vemos que durante muito tempo a enfermidade foi considerada exclusivamente orgânica, o homem foi separado e dissociado dos seus afetos e emoções como se eles não tivessem participação alguma no processo do adoecer.

Os médicos tratavam os doentes do ponto de vista físico, cuidando dos sintomas e procurando terapêuticas medicamentosas ou praticas especificas para diminuir o sofrimento, colaborando com essa cisão que dividia o homem.

Com a intenção de refletir sobre a psicologia clinica hospitalar neste contexto, vou "dar um pulo no tempo" e falar de Freud. A ruptura teórica do pensamento freudiano com o modelo médico psiquiátrico foi-se realizando aos poucos, segundo menciona Birman(1995), que, situando-se num contexto histórico epistemológico, toma o estudo da histeria como eixo para mostrar o salto do espaço da medicina e a construção do campo analítico. O sintoma histérico, passa a ter a partir de Freud, uma especificidade única, que escapa ao modelo biológico, para inserir-se num contexto intersubjetivo.

A partir da afirmação da existência de um corpo representado como eixo da histeria, se define uma outra ordem corporal, diferente da anatomo clinica. "A formulação freudiana apresenta implicações que se situam no plano dos fundamentos, confere a anatomia e a patologia uma configuração imaginaria na medida em que o histérico produz os seus sintomas somáticos e sofre as suas dores na imagem do corpo, e não na materialidade de sua estrutura anatômica". Birman(1995).

A irrupção do conceito de inconsciente na compreensão do mundo psíquico, coloca a psicanálise num lugar diferente no universo do conhecimento, obrigando a traçar caminhos novos para atingir esse saber.

Dejours(1998) pensando sobre o lugar do corpo na leitura psicossomática, diz que a biologia e a psicanálise não estudam a mesma coisa. O corpo que a biologia estuda e o corpo carne, e a função ou a disfunção do órgão, e o sono.

Porém a psicanálise fala de um outro corpo, não do biológico senão do corpo onde se insere o desejo, onde se compromete a relação com um outro e que se estabelece numa relação intersubjetiva. E o corpo erogeno, o corpo do prazer e da subjetividade; o corpo da sexualidade; o corpo que fugiu da biologia para entrar numa outra ordem.

Já em 1905, Freud, ao enunciar a teoria da sexualidade infantil, define a noção de corpo erogeno constituído a partir do corpo representado.

Os conceitos mencionados acima configuram uma determinada leitura do adoecer fundamentada na teoria psicanalitica e que exigem -na pratica hospitalar- um profissional familiarizado com essas idéias, capaz de compreender a fala do paciente e contextulizar-la.

Essa tarefa cabe ao psicólogo hospitalar com uma adequada e especifica formação clinica, teórica e pratica.

Neste ponto da discussão surge uma inquietação, como abordar esse paciente, como atende-lo ? A psicanálise me ofereceu os alicerces para entender o adoecer a partir de um referencial teórico, será que a mesma teoria iluminara a pratica da psicologia hospitalar? Essa e a próxima questão a ser abordada.

A psicologia entra no hospital - lugar de domínio da medicina, onde o saber médico e privilegiado e procurado- com um outro olhar e uma outra linguagem. No meu caso, com um olhar e uma linguagem fundamentados na psicanálise e com uma concepção psicossomática do adoecer, uma visão que abre espaço para os aspectos latentes envolvidos no enfermar e na internação.

Enquanto a abordagem medica privilegia o corpo biológico, a psicologia clinica hospitalar baseada na teoria psicanalitica abre espaço para uma escuta diferenciada; na qual a historia do paciente internado se torna significativa para entender a historia da sua doença. E a experiência mostrou que toda doença tem uma historia, profundamente interligada a historia de vida do paciente.

A esse respeito diz Chiozza, " Podem ser escritas duas histórias clínicas diferentes do sucesso que origina uma consulta medica"...... " A outra (história), interpretando-o (ao sucesso) como o signo que expressa, em uma linguagem críptica, um drama que o doente oculta a si próprio, configurara a trama de uma historia que integra esse episódio, aparentemente acidental, na coerência de um sentido que percorre o conjunto inteiro de uma biografia" (1997).

Ao me aproximar dos pacientes hospitalizados me proponho abrir um espaço de escuta para a historia do seu padecer. E só lhes pedir que contem o que esta acontecendo e como tudo isso começou. As palavras vão surgindo e construindo o pano de fundo da sua situação dolorosa demonstrando o quanto e necessário e importante poder falar, expressar emoções e afetos, geralmente omitidos nas consultas medicas.

Os pacientes precisam não só de cuidados médicos, eles precisam falar de si, da sua doença, da dor, do sofrimento. Essa necessidade de ajuda psicológica pode estar refletida no seguinte questionamento:

"Por que, então, pacientes que vão a mesma instituição hospitalar, em busca de saber médico, ao serem encaminhados para o analista, começam ali mesmo um processo de analise? Por que pacientes internados na instituição, lugar estruturado para fazer valer a ordem medica, ao receberem a oferta de escuta por parte de um analista, iniciam ali mesmo, no leito, "apesar" de sua doença aguda, crônica ou terminal, um processo analítico que por vezes continua após sua alta?", Tourinho (1994)

Penso que ao oferecer atendimento ao paciente no leito, e quando este aceita ser atendido, estamos oferecendo uma escuta especifica, diferente da que ele possa ter com o medico e que lhe permitira aceder a essa trama histórica que colaborou com seu adoecer. Neste ponto já não estamos mais na biologia, estamos na intersubjetividade, nas relações biopsicossociais, inerentes ao ser humano no mundo o que lhe outorga uma nova dimensão ao pensar sobre si próprio: um querer saber sobre ele que abra espaço para o surgimento do inconsciente.

Não e meu objetivo nos atendimentos no hospital recriar o setting do consultório nem fazer psicanálise nos moldes tradicionais, mas oferecer um atendimento onde o paciente se sinta escutado, onde ele perceba que existe "contenção" para o seu sofrimento e espaço para fantasiar, para chorar e expressar medos e angustias. Supõe-se que o paciente que aceita ser atendido pelo psicólogo espera alguma ajuda dele, seja compreensão, orientação, companhia ou ate alguma interpretação se for o caso.

Penso que, fundamentalmente o paciente quer falar sobre alguma coisa e cabe ao psicólogo compreender o que o paciente esta lhe dizendo. A experiência me mostrou a importância da leitura do sentido latente da fala desses sujeitos, pois ela nos confronta, o melhor dito os confronta, com o significado de estar doentes; com as fantasias criadas sobre a enfermidade e também sobre a cura; e por conseqüência com as estruturas do ego mobilizadas ou não para a recuperação.

O atendimento hospitalar que nos oferecemos tem também um objetivo muito especifico, minimizar o impacto da despersonalizaçao provocada pela internação. Que a hospitalização provoca rupturas, perdas e separações não precisa nem ser demonstrado, ela traz isso por conseqüência. Ao ingressar ao hospital e ficar nele internado, o paciente se separa do seu ambiente familiar, da sua rotina e dos seus interesses imediatos. Aquilo que ele organizava ou padronizava na sua vida, agora e substituído pela rotina hospitalar e pelos cuidados médicos. Claro que essa engrenagem na qual o paciente necessita se inserir tem um objetivo importantíssimo, cuidar dele; porem a perda das referencias que o definiam, abala o sentimento de identidade, gerando o processo conhecido como despersonalizaçao.

Em alguns casos, a instituição "esquece" que essas pessoas tem nome, idade, sentimentos e desejos e as trata de forma impessoal, pelo numero do quarto ou pelo quadro clinico. Outras vezes ate proíbem o paciente de levar alguns objetos pessoais que poderiam ajudar a recriar um pouco do ambiente familiar perdido, sem que exista uma justificativa medica para essa proibição.

A roupa oferecida pelo hospital, a camisola despojada, deixa também o sujeito "despojado". O dicionário nos ajuda a entender esse sentimento. Despojar significa: 1.roubar, saquear, defraudar; 2. privar da posse; espoliar, desapossar; 3.privar: A ventania despojou as arvores de suas folhas .(Aurélio, 1995).

Vou me apropriar do exemplo da ventania como metáfora. Penso na doença e a internação como uma ventania, que arranca a saúde, o que e familiar, o conhecido que o homem tem, para colocar em seu lugar um espaço frio e distante como e o hospital.

Os avanços da pesquisa e do desenvolvimento tecnológico favoreceram a especificidade do atendimento medico, que por um lado oferece a possibilidade de ter especialistas cada vez mais aprimorados para atender as necessidades dos pacientes, mas por outro leva a uma "sectorização da medicina em especialidades e a uma conseqüente atitude reducionista, que deriva na perda progressiva da noção holística da unidade psicossomática do homem" Rinaldi (2001).

Desta forma para cada especialista existe um paciente que às vezes deixa de ter um nome para ser rotulado pela sua doença: "o cardíaco", "o cirúrgico", "o psiquiátrico" aumentando ainda mais a sensação de despersonalizaçao e a perda da identidade intensificando o impacto negativo no narcisismo, já atingido pelo adoecer.

A intervenção do psicólogo clínico hospitalar como interlocutor desse sujeito agora doente poderá minimizar o impacto negativo sobre a subjetividade a medida que lhe ofereça uma escuta significativa. Ao abrir o espaço para a palavra, o paciente poderá expressar seus sentimentos e inquietações, e assim estará estabelecida uma rede de comunicação que diminuirá o sentimento de despersonalizaçao. Existira um campo de relações onde esse paciente terá preservada sua condição de sujeito que deseja, sente e pensa, abrindo a possibilidade de se reconhecer doente e participar na sua recuperação. Enfim: ser protagonista da sua saúde- tal como era sugerido pelos deuses gregos no sono sagrado...

A hospitalização isola o homem de seu meio familiar, como se fosse um estrangeiro em terras estranhas; por isso, se torna necessário oferecer aos pacientes internados a possibilidade de recuperar alguns desses laços cortados temporária ou às vezes definitivamente. E importante chamar a pessoa pelo seu nome; e importante que o paciente conheça o nome dos profissionais que cuidam dele, assim como e fundamental, no caso do psicólogo clinico hospitalar, disponibilizar-se para a escuta, tentando minimizar o sofrimento e a angustia do paciente e da sua família.

A humanização do atendimento ao paciente internado supõe o respeito pela pessoa doente, o reconhecimento de que ele tem uma identidade, uma história, um lugar no mundo, que ele deve ser escutado e atendido nas suas queixas que não são apenas orgânicas.

"Humanizar significa particularizar, atender as circunstancias e necessidades individuais. Mas não se trata de qualidade do serviço prestado, de um algo a mais. Humanização e obrigação, e exigência do consumidor, e revitalização de preceitos éticos".Romano, (1999).

Foi na tentativa de conhecer as emoções envolvidas na hospitalização e compreender melhor o sujeito que estava na minha frente, no leito, que iniciei esta pesquisa, comecei com as crianças, continuei com os adolescentes e inesperadamente, como conseqüência de uma comoção interna, que me abalou profundamente, fui pensar no psicólogo hospitalar. Mergulhei no "unheimliche", o "sinistro" freudiano e escrevi sobre o impacto da internação (do outro) no psicólogo hospitalar.

Agora, convido a quem quiser, a me acompanhar com a leitura, e entrar comigo no hospital.

Texto extraído do livro "Hospitalização: o impacto na criança, no adolescente e no psicólogo hospitalar", Nigro, Magdalena-São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

Magdalena Nigro é Psicóloga - CRP - 06/27574-1 - Mestre em Psicologia Clínica no Núcleo de Família e Psicanálise; ESPECIALIZAÇÃO:Psicologia clínica preventiva pela Sociedade de Psicologia Preventiva; Psicodinâmica do adolescente; Psicanálise - CEMEP, Centro de Psicologia Médica, Buenos Aires; Psicodiagnóstico infantil - FASAM, Buenos Aires; Professora do Curso de Lato Sensu em Socio-Psicologia da Escola de Sociologia e Política-SP; Professora e Supervisora do Curso de Lato Sensu em Psicologia Hospitalar da UNISA-SP; Professora e Supervisora do Estágio em Psicologia Hospitalar do Hospital Paulistano e Hospital Santa Paula - SP; Parceira do Ceaap realizando em seu consultório Supervisão,Terapia Pessoal e Grupos de Estudos para psicólogos.

 

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